Sexta-feira, dia 06 de setembro de 2024, teatro na sede da Companhia de Teatro Heliópolis com casa cheia. Em tese, de acordo com a peça de divulgação do evento (“6a. edição da Mostra de Teatro Heliópolis: a Periferia em Cena”), o espetáculo Poetas Empoeirados (ou Canções para Crianças Revolucionárias) destina-se ao público infanto juvenil. Portanto, o público foi composto por crianças e adolescentes de duas instituições sediadas na comunidade de Heliópolis.
Em razão de ter feito a seleção das obras da edição de 2024, ainda que por vídeo, já sabia que iria vir bom espetáculo. Ao entrar no teatro, de modo semicircular um conjunto de instrumentos encontrava-se no espaço. Ao fundo uma “rotunda”, com fundo branco, repleta de imagens de crianças, máscaras, rostos de palhaços e algumas marcas de sola de sapato. Ao contemplar as imagens grafitadas (por Aquino Supertramp) era possível reconhecer algumas reproduções antológicas de acontecimentos reais: a menina vietnamita, correndo nua com a pele se desprendendo do corpo, decorrente das bombas de napalm atiradas pelos estadunidenses, na Guerra do Vietnã; a pequena criança síria afogada cujo corpo aparecia em uma das praias da Turquia; o genocídio praticado contra o povo Yanomami, durante o governo Bolsonaro… imagens fortes e impactantes. Aquele telão de fundo, de distintos modos nos recolocava em distintos momentos da história, em que a barbárie vencia.
Ao iniciar o espetáculo, o excelente elenco, formado por coro de musicistas (Danilo Mora, Kleyton Breda, Letthícia Johanson, Renan Vinícius, Samanta Verrone e Tati Takiyama) aparece, vestido de roupas com roupas brancas, cujos tecidos eram escritos e desenhados. Por intermédio de atitude de intensa reverência (quase ritual), o elenco iniciou a obra.
No título a batizar o espetáculo algumas imagens saltam aos olhos: poetas empoeirados, canções, crianças revolucionárias. Na verdade, pela imaginação permanentemente potencializada, as crianças são criadoras de imagens poéticas, pela sua capacidade e voragem inventivas. Tudo vem e se instaura por meio de reinvenção.
Estruturalmente, o espetáculo se caracteriza em uma espécie de ópera-revisteira. Em seus episódios, entrecortados por músicas (de Chico Buarque de Hollanda e criações autorais), cantadas e tocadas, de modo harmoniosamente rigoroso, a narrativa desenvolve se por meio de assuntos diversos. Nas narrações apresentadas pelo conjunto, são
apresentadas notícias sobre crianças (sobretudo aquelas colocadas à margem, nas mais distantes periferias do mundo); de bichos (com destaque aos ratos e aos cachorros); de gente negra (militantes e artistas); de fragmentos e alusões a obras clássicas da literatura; de espetáculos anteriores montados pela Cia. Variante (com 11 anos de existência), portanto, em perspectiva metateatral.
Tudo muito cuidado e muito bem feito. Todos os adereços de cena trabalhados, reconfigurados. Muitos detalhes que explicitam o cuidado e respeito com sua obra. A partir de certo momento, com os olhos atentos até um par de tênis se vê, dependurado – à semelhança daqueles nos fios de bairros populares – naquele terreiro de contestação e de beleza. Sinto que o coletivo tem de investir nas proposições coreográficas. Pela temática e tratamento da obra, os corpos precisariam fazer outro tipo de pesquisa e apresentar outro tipo de registro.
Na obra percebe-se, e de modo contundente, uma significativa harmonia, com muito rigor e sentido do que ali é apresentado. Nos olhos dos/ das integrantes um brilho emocionante, forte, pleno. Olhos a manifestar gama diferenciados por estar naquele lugar, e a fazer parte daquela linda obra. Para finalizar a obra, e como precisaria ser – depois de tudo o que foi apresentado – a direção delicada e contundente de Danilo Mora finaliza com um manifesto e conclamante panfleto, por meio do qual o conjunto lembra de algumas das barbáries que não podem ser esquecidas e de tudo que não pode deixar de ser mencionado.
Na roda de conversa, Márcia, mãe de 10 filhos e moradora da comunidade de Heliópolis falou sobre o espetáculo muito emocionada; Gustavo, um jovem de 15/ 16 anos inicia sua fala afirmando não gostar de teatro e que não queria ter ido à sede da Companhia de Teatro Heliópolis, mas ficou deslumbrado com o que assistiu e alguma coisa mudou nele.
